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Colagem / Coragem
(excerto)

Descobri na colagem um antídoto para a cobardia. Não procura a verdade, nem a mentira. Está para lá do bem e do mal, mesmo quando corto orelhas e amputo senhores bem-parecidos. Um corpo não é um corpo, mas uma realidade transformista. Viro cães de pernas para o ar. Coloco uma língua no lugar de umas sobrancelhas. Onde havia uma flor, descubro um rabo. Onde foi Lisboa, um punho. Ao comando de uma quadriga, um molho de cenouras. Na festa da colagem, não há letreiros, legendas, ordem, nexo nem lei. Não é terra de ninguém, mas um cemitério de abominações, sem placas funerárias. Animais com cara de homem, mulheres com bico de pássaro, peixes com mãos, olhos com cabeça, cebolas de brinco, ervilhas-pupila. Nesse avesso dos contos de fadas, a coragem pulsa. Onde houve coração, há uma ponta-e-mola. Para machucar a realidade, basta uma tesoura. O conhecido reconfigura-se a partir de um gesto tão singelo, como cortar papel, tecido, fita-cola. No início, não houve o verbo, mas o buraco, o vórtice e um estilete — para cortar a língua. Lá, onde ninguém fala, porque ninguém tem a boca no sítio, reina o silêncio e a confusão carnavalesca, onde reinava a intimidação e a censura. Não consigo explicar o eclipse da lógica, na colagem, sem concluir que as palavras, afinal, estragam tudo. Na colagem, sou corajosa. Mas será que posso falar de coragem? Não tenho medo de dizer o que penso nem do barulho do meu silêncio. Não me censuro. Não temo o que pensarão dos meus pensamentos. Não temo os meus pensamentos. Não desato a fugir para trás do pano.

Djaimilia Pereira de Almeida, 2019.